V. Museu da Inconfidência
Carlos Drummond de Andrade
São palavras no chão
E memórias nos autos.
As casas inda restam,
Os amores, mais não
E restam poucas roupas,
Sobrepeliz de pároco
E vara de um juiz,
Anjos, púrpuras, ecos
Macia flor de olvido,
Sem aroma governas
O tempo ingovernável.
Muitos pranteiam. Só.
Toda a história é remorso.
Museu
Cecília Meireles
Espadas frias, nítidas espadas,
Duras viseiras já sem perspectiva,
Cetro sem mãos, coroa já não viva de cabeças em sangue naufragadas;
Anéis de demorada narrativa,
Leques sem fala, trompas sem caçadas,
Pêndulos de horas não mais escutadas,
Espelhos de memória fugitiva;
Ouro e prata, turquesa e granadas,
Que é da presença passageira e esquiva
Das heranças dos poetas; malogradas:
A estrela, o passarinho, a sensitiva,
A água que nunca volta, as bem amadas
A saudade de Deus, vaga e inativa...?
O ramo de flores no museu
Cecília Meireles
Ó Cinérea Princesa, as vossas flores
Ficarão para sempre mais perfeitas,
Já que o tempo extinguiu brilho e cores
Já que o tempo extinguiu a habilidosa
Mão que levou, serenas e discretas,
A tulipa sucinta e ardente rosa.
Não há mais ilusão de outra presença
Que a do Amor que inspirou graças tão finas
Que ninguém viu e que ninguém mais pensa
Porque o homem e o mundo são de ruínas.
E este ramo de pétalas franzinas,
Leve, liberto da mortal sentença,
Tinha, ó Princesa, fábulas divinas
Em cada flor, sobre o nada suspensa.
Museu
Wislawa Szymborska
Há pratos, mas falta apetite.
Há alianças, mas falta reciprocidade
Pelo menos desde há 300 anos.
Há o leque – onde os rubores?
Há espadas – onde há ira
E o alaúde nem tange hora gris.
Por falta de eternidade juntaram
Dez mil coisas velhas.
Um guarda musgoso cochila docemente
Com os bigodes caindo sobre a vitrine.
Metais, barro, pluma de ave
Triunfam silenciosamente no tempo.
Apenas um alfinete de galhofeira do Egito
Ri zombeteiro.
A coroa deixou passar a cabeça.
A mão perdeu a luva.
A bota direita prevaleceu sobre a perna.
Quanto a mim, vivo, acreditem por favor.
Minha corrida com o vestido continua
E que resistência tem ele!
E como ele gostaria de sobreviver
Museu de tudo
João Cabral de Melo Neto
Este museu de tudo é museu
Como qualquer outro reunido;
Como museu, tanto pode ser
Caixão de lixo ou arquivo.
Assim, não chega ao vertebrado
Que deve entranhar qualquer livro:
É depósito do que aí está,
Se fez sem risca ou risco.
O mito em carne viva
João Cabral de Melo Neto
Em certo lugar de Castela,
Num dos mil museus que ela é,
Ouvi uma sevilhana,
A quem pouco dizia a Fé,
Ante uma crucificação
Comovida dizer
A emoção mais nua e crua
Corpo a corpo, imediata, ao pé,
Sem compunção fingida,
Sem perceber se quer
A névoa que a pintura
Põe entre o que é e o que é:
Lo que é no habrá sufr’io e´ta mujé!
Era a expressão em carne viva,
E porque viva mais ativa:
Nua, sem os rituais ou as cortinas
Que a linguagem traz por mais fina.
A crucificação para ela
Não era o que o pintor num tempo:
Para ela como um cinema
Narrando um acontecimento
Era como a televisão
Dando-o a viver no momento.
No museu da memória
João Cabral de Melo Neto
No museu da memória guardo de Munique
Os carrilhões da praça, a festa da cerveja.
Guardo a galeria de retrato das amantes
De Frederico, o Grande, e as telas do monge
Zurbarán. No museu da memória reservei
Um espaço para a pequena Gräfelfing. Mas,
No centro desse nada que são as lembranças,
Guardo os doces olhos de Radha, mais que os
Castelos da Baviera, mais que Boris Gudonov.
Imprimir esta matéria
quarta-feira, 21 de abril de 2010
segunda-feira, 30 de novembro de 2009
quinta-feira, 19 de novembro de 2009
quarta-feira, 18 de novembro de 2009
Texto literário para análise
Pertencer
Um amigo meu, médico, assegurou-me que desde o berço a criança sente o ambiente, a criança quer: nela o ser humano, no berço mesmo, já começou.
Tenho certeza de que no berço a minha primeira vontade foi a de pertencer. Por motivos que aqui não importam, eu de algum modo devia estar sentindo que não pertencia a nada e a ninguém. Nasci de graça.
Se no berço experimentei esta fome humana, ela continua a me acompanhar pela vida afora, como se fosse um destino. A ponto de meu coração se contrair de inveja e desejo quando vejo uma freira: ela pertence a Deus.
Exatamente porque é tão forte em mim a fome de me dar a algo ou a alguém, é que me tornei bastante arisca: tenho medo de revelar de quanto preciso e de como sou pobre. Sou, sim. Muito pobre. Só tenho um corpo e uma alma. E preciso de mais do que isso.
Com o tempo, sobretudo os últimos anos, perdi o jeito de ser gente. Não sei mais como se é. E uma espécie toda nova de "solidão de não pertencer" começou a me invadir como heras num muro.
Se meu desejo mais antigo é o de pertencer, por que então nunca fiz parte de clubes ou de associações? Porque não é isso que eu chamo de pertencer. O que eu queria, e não posso, é por exemplo que tudo o que me viesse de bom de dentro de mim eu pudesse dar àquilo que eu pertenço. Mesmo minhas alegrias, como são solitárias às vezes. E uma alegria solitária pode se tornar patética. É como ficar com um presente todo embrulhado em papel enfeitado de presente nas mãos - e não ter a quem dizer: tome, é seu, abra-o! Não querendo me ver em situações patéticas e, por uma espécie de contenção, evitando o tom de tragédia, raramente embrulho com papel de presente os meus sentimentos.
Pertencer não vem apenas de ser fraca e precisar unir-se a algo ou a alguém mais forte. Muitas vezes a vontade intensa de pertencer vem em mim de minha própria força - eu quero pertencer para que minha força não seja inútil e fortifique uma pessoa ou uma coisa.
Quase consigo me visualizar no berço, quase consigo reproduzir em mim a vaga e no entanto premente sensação de precisar pertencer. Por motivos que nem minha mãe nem meu pai podiam controlar, eu nasci e fiquei apenas: nascida.
No entanto fui preparada para ser dada à luz de um modo tão bonito. Minha mãe já estava doente, e, por uma superstição bastante espalhada, acreditava-se que ter um filho curava uma mulher de uma doença. Então fui deliberadamente criada: com amor e esperança. Só que não curei minha mãe. E sinto até hoje essa carga de culpa: fizeram-me para uma missão determinada e eu falhei. Como se contassem comigo nas trincheiras de uma guerra e eu tivesse desertado. Sei que meus pais me perdoaram por eu ter nascido em vão e tê-los traído na grande esperança.
Mas eu, eu não me perdôo. Quereria que simplesmente se tivesse feito um milagre: eu nascer e curar minha mãe. Então, sim: eu teria pertencido a meu pai e a minha mãe. Eu nem podia confiar a alguém essa espécie de solidão de não pertencer porque, como desertor, eu tinha o segredo da fuga que por vergonha não podia ser conhecido.
A vida me fez de vez em quando pertencer, como se fosse para me dar a medida do que eu perco não pertencendo. E então eu soube: pertencer é viver. Experimentei-o com a sede de quem está no deserto e bebe sôfrego os últimos goles de água de um cantil. E depois a sede volta e é no deserto mesmo que caminho!
Clarice LispectorUm amigo meu, médico, assegurou-me que desde o berço a criança sente o ambiente, a criança quer: nela o ser humano, no berço mesmo, já começou.
Tenho certeza de que no berço a minha primeira vontade foi a de pertencer. Por motivos que aqui não importam, eu de algum modo devia estar sentindo que não pertencia a nada e a ninguém. Nasci de graça.
Se no berço experimentei esta fome humana, ela continua a me acompanhar pela vida afora, como se fosse um destino. A ponto de meu coração se contrair de inveja e desejo quando vejo uma freira: ela pertence a Deus.
Exatamente porque é tão forte em mim a fome de me dar a algo ou a alguém, é que me tornei bastante arisca: tenho medo de revelar de quanto preciso e de como sou pobre. Sou, sim. Muito pobre. Só tenho um corpo e uma alma. E preciso de mais do que isso.
Com o tempo, sobretudo os últimos anos, perdi o jeito de ser gente. Não sei mais como se é. E uma espécie toda nova de "solidão de não pertencer" começou a me invadir como heras num muro.
Se meu desejo mais antigo é o de pertencer, por que então nunca fiz parte de clubes ou de associações? Porque não é isso que eu chamo de pertencer. O que eu queria, e não posso, é por exemplo que tudo o que me viesse de bom de dentro de mim eu pudesse dar àquilo que eu pertenço. Mesmo minhas alegrias, como são solitárias às vezes. E uma alegria solitária pode se tornar patética. É como ficar com um presente todo embrulhado em papel enfeitado de presente nas mãos - e não ter a quem dizer: tome, é seu, abra-o! Não querendo me ver em situações patéticas e, por uma espécie de contenção, evitando o tom de tragédia, raramente embrulho com papel de presente os meus sentimentos.
Pertencer não vem apenas de ser fraca e precisar unir-se a algo ou a alguém mais forte. Muitas vezes a vontade intensa de pertencer vem em mim de minha própria força - eu quero pertencer para que minha força não seja inútil e fortifique uma pessoa ou uma coisa.
Quase consigo me visualizar no berço, quase consigo reproduzir em mim a vaga e no entanto premente sensação de precisar pertencer. Por motivos que nem minha mãe nem meu pai podiam controlar, eu nasci e fiquei apenas: nascida.
No entanto fui preparada para ser dada à luz de um modo tão bonito. Minha mãe já estava doente, e, por uma superstição bastante espalhada, acreditava-se que ter um filho curava uma mulher de uma doença. Então fui deliberadamente criada: com amor e esperança. Só que não curei minha mãe. E sinto até hoje essa carga de culpa: fizeram-me para uma missão determinada e eu falhei. Como se contassem comigo nas trincheiras de uma guerra e eu tivesse desertado. Sei que meus pais me perdoaram por eu ter nascido em vão e tê-los traído na grande esperança.
Mas eu, eu não me perdôo. Quereria que simplesmente se tivesse feito um milagre: eu nascer e curar minha mãe. Então, sim: eu teria pertencido a meu pai e a minha mãe. Eu nem podia confiar a alguém essa espécie de solidão de não pertencer porque, como desertor, eu tinha o segredo da fuga que por vergonha não podia ser conhecido.
A vida me fez de vez em quando pertencer, como se fosse para me dar a medida do que eu perco não pertencendo. E então eu soube: pertencer é viver. Experimentei-o com a sede de quem está no deserto e bebe sôfrego os últimos goles de água de um cantil. E depois a sede volta e é no deserto mesmo que caminho!
quarta-feira, 4 de novembro de 2009
Sugestão de pesquisa 01
x
Um estudo do romance O Cortiço(1890) de Aluísio Azevedo, expressão máxima do Naturalismo/Realismo, focando a personagem principal, João Romão, que pode ser encarado como metáfora do capitalismo selvagem, pois tem como principal objetivo na vida enriquecer a qualquer custo.Sua ambição, não tem barreiras; sacrifica até a si mesmo. Veste-se mal. Dorme no mesmo balcão em que trabalha. Come as piores verduras de sua horta: o resto vende. Há como vc fazer pesquisas sobre dados históricos da época e ilustrar com passagens do livro. Sugiro uma leitura casada com os dados históricos.
Buscar tambémb informações sobre o movimento de época que envolve não só a literatura mas as Artes como um todo. O que pode motivar uma análise de obras das artes visuais. Uma leitura e/ou releitura deste clássico é importante.
Pesquisar informações sobre o autor, dados biográficos e bibliograficos são importantes para o desenvolvimento de um tema. Depois de inteirar-se de todos estes dados, propor um tema que envolva um aspecto interdisciplinar.
Pode-se fazer tambémb uma leitura da obra tendo em mente o processo de implantação da República no Brasil e a questão da "higenização urbana" que ocorreu no Rio de Janeiro com a reforma Campos Alves. A demolição do cortiços como um processo de reubarnização da cidade nesta época.
Um estudo do romance O Cortiço(1890) de Aluísio Azevedo, expressão máxima do Naturalismo/Realismo, focando a personagem principal, João Romão, que pode ser encarado como metáfora do capitalismo selvagem, pois tem como principal objetivo na vida enriquecer a qualquer custo.Sua ambição, não tem barreiras; sacrifica até a si mesmo. Veste-se mal. Dorme no mesmo balcão em que trabalha. Come as piores verduras de sua horta: o resto vende. Há como vc fazer pesquisas sobre dados históricos da época e ilustrar com passagens do livro. Sugiro uma leitura casada com os dados históricos.
Buscar tambémb informações sobre o movimento de época que envolve não só a literatura mas as Artes como um todo. O que pode motivar uma análise de obras das artes visuais. Uma leitura e/ou releitura deste clássico é importante.
Pesquisar informações sobre o autor, dados biográficos e bibliograficos são importantes para o desenvolvimento de um tema. Depois de inteirar-se de todos estes dados, propor um tema que envolva um aspecto interdisciplinar.
Pode-se fazer tambémb uma leitura da obra tendo em mente o processo de implantação da República no Brasil e a questão da "higenização urbana" que ocorreu no Rio de Janeiro com a reforma Campos Alves. A demolição do cortiços como um processo de reubarnização da cidade nesta época.
Assinar:
Postagens (Atom)